Mentir às vezes é necessário. E não necessariamente uma mentira foi utilizada para prejudicar outra pessoa. Às vezes, ocultar a realidade pode ser vital para a autosobrevivência.
Essas afirmações podem ser amorais? O dono deste blog enlouqueceu! Não. Talvez, o preço da mentira seja alto. Demasiadamente alto. Custa noites de sono mal dormidas, taquicardias, medos, inquietações. A paz de espírito é afugentada. É necessária uma barganha imensa, repleta de respirações, orações, transpirações para que, com ele, também retorne o sono. O sono tranquilo dos justos.
A mentira é uma tênue linha, que divide a nossa consciência entre a calma, a lucidez, de um lado, e as perseguições da nossa moral de outro. E o indivíduo caminha, na ponta dos pés, timidamente, para que não possa cair de um lado ou de outro. Para abafar o som de um coração que insiste em denunciar aos outros aquilo que lhes está encoberto sobre os olhos. Que insiste em tirar das regiões púberes a pobre folhinha que esconde as vergonhas, denunciadas pelo prazer do fruto proibido e de toda a perigosa liberdade que lhe advém. Uma liberdade que pode trazer muitas recompensas. Mas a um preço elevado.
Porém, resta-nos a verdade? Talvez, a minha falta de sono seja um sinal a procura desta noção.
segunda-feira, 31 de agosto de 2009
sábado, 29 de agosto de 2009
Retorno
Aos poucos, a alma destroçada retorna... naquele eterno retorno nietschiniano resgatado pela leitura-barata-pseudointelectual-depapeljornalbarato-kunderiano. Após um acidente, um corpo pode voltar a se recuperar. Mas... e uma alma? Ela se recuperará ou viverá para todo o sempre, como um vaso que caiu, carregando as marcas indeléveis das dores e dos traumas?
Somente hoje percebi que passaram-se 8 meses sem nenhum texto. Sem nem um remédio que possa aplacar as dores da alma. Um escritor, acima de tudo, gasta seu tempo, escreve, desenvolve externas tramas para explicar seus internos traumas.
Será que não houve necessidade de medicação nesse período que se passou? Será que, como a Carolina de olhos fundos do Chico, eu fiquei na janela e só eu não vi o tempo passar? Será a mesma preguiça que nos afasta dos necessários exercícios físicos que me afastou do exercício indispensável da crônica?
Escrita exige disciplina. Mas também exige ter o que dizer. E sinto, realmente, que tudo se esvai. Tenho medo de ser repetitivo, temo expor o mais do mesmo que vive dentro de mim. Não há personagens multifacetados nos quais posso dividir o meu eu dividido em muitos.
Somente hoje percebi que passaram-se 8 meses sem nenhum texto. Sem nem um remédio que possa aplacar as dores da alma. Um escritor, acima de tudo, gasta seu tempo, escreve, desenvolve externas tramas para explicar seus internos traumas.
Será que não houve necessidade de medicação nesse período que se passou? Será que, como a Carolina de olhos fundos do Chico, eu fiquei na janela e só eu não vi o tempo passar? Será a mesma preguiça que nos afasta dos necessários exercícios físicos que me afastou do exercício indispensável da crônica?
Escrita exige disciplina. Mas também exige ter o que dizer. E sinto, realmente, que tudo se esvai. Tenho medo de ser repetitivo, temo expor o mais do mesmo que vive dentro de mim. Não há personagens multifacetados nos quais posso dividir o meu eu dividido em muitos.
terça-feira, 9 de dezembro de 2008
Releituras
Influenciado por motivos alheios, ando fazendo releituras de obras da literatura brasileira há algum tempo adormecidas. Antes, tinha o costume de ler um livro por vez, mas à medida que passam os anos, venho lendo aquilo que me dá vontade.
Semana passada, fui ver a cópia restaurada de São Bernardo, filme homônimo do clássico romance de Graciliano Ramos, fielmente transplantado para a grande tela. Fiquei com vontade de revisitar o livro. Eu tinha uma edição, de 1953, amarelada pelo tempo e me deliciei ao viajar novamente naquelas páginas, recuperando, pouco a pouco, as sensações que me imprimiram no espírito as primeiras descrições das fortes personalidades de Paulo Honório e Madalena, personagens intrinsicamentes marcados pela tragédia da incompreensão.
Deixarei a biografia de Mao Tsé Tung de lado, mais uma vez, para voltar a reler D. Casmurro. Estou sob o efeito da maravilhosa adaptação feita pela equipe de Luiz Fernando Carvalho do clássico machadiano, preservando a sua rica estrutura narrativa e agregando, lado a lado, elementos modernos e tradicionais.
Percebe-se a modernidade da obra machadiana. Considero, ao assistir a minissérie, a minha quarta-leitura da clássica rememorização de Bentinho Santiago daquilo que foi seu grande amor e tragédia, os olhos de ressaca capitulinos.
Obviamente que, nas leituras anteriores, embarquei na viagem de tentar descobrir, infrutifiramente, se Capitu traiu ou não Bentinho ou se tudo foi fruto de uma mente fantasiosa.
Porém, ao ver o primeiro capítulo, pude notar porque D. Casmurro é um clássico e, ao mesmo tempo, cativante. Clássico porque a questão da traição é incidental na obra: o principal, realmente, não são os desencontros e desafetos dos protagonistas. As luzes centrais iluminam a eterna ópera performatizada pelos dois principais personagens da humanidade, o homem e a mulher. D. Casmurro é um clássico porque Machado de Assis tenta analisar a essência das almas feminina e da masculina. Em mais uma tentativa de delinear o assombro que é a diferença entre esses seres concavos, convexos, distintos, complementares, que podem habitar corpos separados, um mesmo corpo, corpos transpassados, corpos trocados, corpos tresloucados.
E, ao mesmo tempo, D. Casmurro é cativante à medida que, nas palavras do protagonista, ao tentar atar "as duas pontas da vida", Machado relembra - para o público e talvez para si próprio - as delícias martirizantes da adolescência, talvez em sua versão mais madura em Capitu, pelo simples fato de ser mulher. Isso tornou-se evidente para mim, na série, nas cenas dos namoricos nos jardins entre os dois, embaladas ao som de Beirut: o que se contempla é o alumbramento (lembrando o grande Manuel Bandeira), a pura inocência da segunda década de vida de qualquer um de nós, quando a vida ao mesmo tempo se apresenta simples e complexa, impossível e fácil, ao mesmo tempo. E Machado instala a empatia em nós ao criar este idílio introdutório, remetendo a um tempo futuro, onde nem as mais loucas parafernálias tecnológicas conseguiram arrancar esse comportamento que ainda se manifesta na juventude, tanto em seus aspectos cômicos quanto, nos casos mais radicais, embalados pela tragédia.
Enfim, Graciliano e Machado, além de clássicos, têm como ponto em comum a experimentação ousada de uma nova proposta de linguagem para a sua época e, curiosamente nos dois romances aqui apresentados, uma coincidência temática: as suspeitas de traição movem o drama tanto de D. Casmurro quanto de S. Bernardo. Bentinho e Paulo Honório, apesar de apresentar características diversas, encontram-se no vale das almas dos homens perdidos que não sabem lidar com a sua masculinidade diante de uma explosão de segurança de suas parceiras. A diferença é que Machado nos poupou - e se poupou também - de ver Capitu se degenerar fisicamente e mentalmente, sorte que não ocorreu a Madalena. Sabemos da separação do casal da obra machadiana, mas evitou-se olhar, com os nossos olhos carnais ou mesmo imaginários, o triste fim daquela que ficou, para a posteridade, conhecida como o grande enigma da literatura brasileira.
Esse não foi o único caso de contato entre os dois autores. Há alguns anos, Roberto Pompeu de Toledo, colunista da Veja, apontava semelhanças no tratamento entre os cachorros dos dois autores, em Quincas Borba e em Vidas Secas. Neste ponto, me lembro que o colunista até brincou, dizendo que o "comunista e supostamente ateu" Graciliano ainda teve a misericórdia de levar Baleia a um céu dos cachorros, presenteando-a, na vida eterna, com todos os preás que lhes foram privados na terra. A Quincas Borba, nem isso lhe foi concedido.
Semana passada, fui ver a cópia restaurada de São Bernardo, filme homônimo do clássico romance de Graciliano Ramos, fielmente transplantado para a grande tela. Fiquei com vontade de revisitar o livro. Eu tinha uma edição, de 1953, amarelada pelo tempo e me deliciei ao viajar novamente naquelas páginas, recuperando, pouco a pouco, as sensações que me imprimiram no espírito as primeiras descrições das fortes personalidades de Paulo Honório e Madalena, personagens intrinsicamentes marcados pela tragédia da incompreensão.
Deixarei a biografia de Mao Tsé Tung de lado, mais uma vez, para voltar a reler D. Casmurro. Estou sob o efeito da maravilhosa adaptação feita pela equipe de Luiz Fernando Carvalho do clássico machadiano, preservando a sua rica estrutura narrativa e agregando, lado a lado, elementos modernos e tradicionais.
Percebe-se a modernidade da obra machadiana. Considero, ao assistir a minissérie, a minha quarta-leitura da clássica rememorização de Bentinho Santiago daquilo que foi seu grande amor e tragédia, os olhos de ressaca capitulinos.
Obviamente que, nas leituras anteriores, embarquei na viagem de tentar descobrir, infrutifiramente, se Capitu traiu ou não Bentinho ou se tudo foi fruto de uma mente fantasiosa.
Porém, ao ver o primeiro capítulo, pude notar porque D. Casmurro é um clássico e, ao mesmo tempo, cativante. Clássico porque a questão da traição é incidental na obra: o principal, realmente, não são os desencontros e desafetos dos protagonistas. As luzes centrais iluminam a eterna ópera performatizada pelos dois principais personagens da humanidade, o homem e a mulher. D. Casmurro é um clássico porque Machado de Assis tenta analisar a essência das almas feminina e da masculina. Em mais uma tentativa de delinear o assombro que é a diferença entre esses seres concavos, convexos, distintos, complementares, que podem habitar corpos separados, um mesmo corpo, corpos transpassados, corpos trocados, corpos tresloucados.
E, ao mesmo tempo, D. Casmurro é cativante à medida que, nas palavras do protagonista, ao tentar atar "as duas pontas da vida", Machado relembra - para o público e talvez para si próprio - as delícias martirizantes da adolescência, talvez em sua versão mais madura em Capitu, pelo simples fato de ser mulher. Isso tornou-se evidente para mim, na série, nas cenas dos namoricos nos jardins entre os dois, embaladas ao som de Beirut: o que se contempla é o alumbramento (lembrando o grande Manuel Bandeira), a pura inocência da segunda década de vida de qualquer um de nós, quando a vida ao mesmo tempo se apresenta simples e complexa, impossível e fácil, ao mesmo tempo. E Machado instala a empatia em nós ao criar este idílio introdutório, remetendo a um tempo futuro, onde nem as mais loucas parafernálias tecnológicas conseguiram arrancar esse comportamento que ainda se manifesta na juventude, tanto em seus aspectos cômicos quanto, nos casos mais radicais, embalados pela tragédia.
Enfim, Graciliano e Machado, além de clássicos, têm como ponto em comum a experimentação ousada de uma nova proposta de linguagem para a sua época e, curiosamente nos dois romances aqui apresentados, uma coincidência temática: as suspeitas de traição movem o drama tanto de D. Casmurro quanto de S. Bernardo. Bentinho e Paulo Honório, apesar de apresentar características diversas, encontram-se no vale das almas dos homens perdidos que não sabem lidar com a sua masculinidade diante de uma explosão de segurança de suas parceiras. A diferença é que Machado nos poupou - e se poupou também - de ver Capitu se degenerar fisicamente e mentalmente, sorte que não ocorreu a Madalena. Sabemos da separação do casal da obra machadiana, mas evitou-se olhar, com os nossos olhos carnais ou mesmo imaginários, o triste fim daquela que ficou, para a posteridade, conhecida como o grande enigma da literatura brasileira.
Esse não foi o único caso de contato entre os dois autores. Há alguns anos, Roberto Pompeu de Toledo, colunista da Veja, apontava semelhanças no tratamento entre os cachorros dos dois autores, em Quincas Borba e em Vidas Secas. Neste ponto, me lembro que o colunista até brincou, dizendo que o "comunista e supostamente ateu" Graciliano ainda teve a misericórdia de levar Baleia a um céu dos cachorros, presenteando-a, na vida eterna, com todos os preás que lhes foram privados na terra. A Quincas Borba, nem isso lhe foi concedido.
terça-feira, 11 de novembro de 2008
fé verbo intransitivo
Os grandes olhos azuis de Plácido estavam intranquilos naquela noite clara de domingo. Ele não possuía os mares não-pacíficos de Maysa. Talvez porque o desventurado não tenha tido um Manuel Bandeira como um admirador. Mas eles merecem a comparação.
Plácido estava com suas estruturas abaladas. Não podia crer em nada. O que aconteceria após a morte? Os bons vão para o céu e os maus para o inferno, como foi ensinado num catecismo tiquetaqueante... mas o que era a bondade ou a maldade? Muitas vezes, pegava-se questionando essas certezas absolutas em prol de imaginar se a ocasião, em qualquer caso, faria o ladrão.
Lembrou-se da definição bíblica de que a fé é o firme fundamento daquilo que não se vê. às vezes, em seus sonhos, Plácido se via fugindo, escapando de um inimigo invisível, sem sexo definido, não sabia se humano ou monstro, enquanto o chão azulejado desfazia-se sob seus pés rumo ao um infinito. A palavra infinito dá uma conotação de céu, de altura, mas este infinito seguia para a terra, para o Hades... Ou será que Plácido estava de cabeça pra baixo, como, aliás, se encontrava o seu mundo?
Plácido se lembrou da definição de fe e concluiu que, tal qual o amor, a fé é um verbo intransitivo. Seu complemento acaba-se em si mesmo. E deve ser assim. Se a fé exigesse qualquer objeto para se completar, seja direto ou indireto, trairia a sua essência. Deixaria de ser fé. Para ser o quê?
Plácido estava com suas estruturas abaladas. Não podia crer em nada. O que aconteceria após a morte? Os bons vão para o céu e os maus para o inferno, como foi ensinado num catecismo tiquetaqueante... mas o que era a bondade ou a maldade? Muitas vezes, pegava-se questionando essas certezas absolutas em prol de imaginar se a ocasião, em qualquer caso, faria o ladrão.
Lembrou-se da definição bíblica de que a fé é o firme fundamento daquilo que não se vê. às vezes, em seus sonhos, Plácido se via fugindo, escapando de um inimigo invisível, sem sexo definido, não sabia se humano ou monstro, enquanto o chão azulejado desfazia-se sob seus pés rumo ao um infinito. A palavra infinito dá uma conotação de céu, de altura, mas este infinito seguia para a terra, para o Hades... Ou será que Plácido estava de cabeça pra baixo, como, aliás, se encontrava o seu mundo?
Plácido se lembrou da definição de fe e concluiu que, tal qual o amor, a fé é um verbo intransitivo. Seu complemento acaba-se em si mesmo. E deve ser assim. Se a fé exigesse qualquer objeto para se completar, seja direto ou indireto, trairia a sua essência. Deixaria de ser fé. Para ser o quê?
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crônicas de viver
segunda-feira, 10 de novembro de 2008
Poeta? Poetinha
Sempre disseram que eu era um poeta. Porém, nunca me vi como um poeta. Para mim, poetas eram aqueles seres que trabalhavam sozinhos, buscando a imagem perfeita, a rima preciosa, a palavra burilada.
Não penso nos simbolistas, acusados de não descerem de suas torres de marfim para ouvir a voz do povo. Penso mesmo em Drummond. Em Vinicius. Em Bandeiras. Desses gênios que souberam transformar o burburinho popular em uma sinfonia de aliterações, ritmos, sons, sentimentos.
A voz que eu escuto é a interior. É a voz que me grita, que me desassossega, que me tira do meu lugar em busca de outro, mais alto que eu. Não sei arrumá-la. Apenas sei desconcertá-la, tirá-la daqui, pô-la acolá, colocando-a apenas na ordem e na lógica que me mandam, as quais - pobre servo - resta apenas obedecer.
Não há sons, não há rimas. Eu sou um poeta que não sei rimar. Eu apenas sei pulsar. Será que sou poeta?
Não penso nos simbolistas, acusados de não descerem de suas torres de marfim para ouvir a voz do povo. Penso mesmo em Drummond. Em Vinicius. Em Bandeiras. Desses gênios que souberam transformar o burburinho popular em uma sinfonia de aliterações, ritmos, sons, sentimentos.
A voz que eu escuto é a interior. É a voz que me grita, que me desassossega, que me tira do meu lugar em busca de outro, mais alto que eu. Não sei arrumá-la. Apenas sei desconcertá-la, tirá-la daqui, pô-la acolá, colocando-a apenas na ordem e na lógica que me mandam, as quais - pobre servo - resta apenas obedecer.
Não há sons, não há rimas. Eu sou um poeta que não sei rimar. Eu apenas sei pulsar. Será que sou poeta?
quinta-feira, 6 de novembro de 2008
poltrona de couro elétrica
A gripe não despossuía meu corpo. Havia três dias que uma sinfonia incômoda de tosses violentas, rouquidão e um constante arfar me tomava. Toda a minha angústia existencial saltava de meus poros... para onde?
para o ar, para o etéreo, para a energia quimérica do nada que em tudo se transforma. porém, meu pobre corpo já não suportava aquele peso. compromissos profissionais me exigiam pelo menos 50% de minha saúde e forma física, e, naquela momento, sentia que estava contando apenas com o mínimo para sobreviver...
Me dirigi ao hospital. Enfrentei a descrença de uma jovem médica, que relutava em aplicar uma medicação de emergência. Malditos planos de saúde que implementaram a miséria humana onde nossas corpos mais precisam de carinho... em busca de economizar uns trocados.
Fui valente, enfrentei a terrível guardiã da burra economia e ela me indicou meia hora de inalação e um breve composto de drogas intravenária. Me indicaram uma sala, com poltronas de couro marrom, onde restaria meu pobre corpo cansado... e humano! por este período, pude observar o microcosmo de um universo à minha frente...vigiado por uma outra dimensão, intermediada pela tela da televisão, onde o Palmeiras levava uma surra de uma equipe argentina qualquer....
Namorados fiéis acompanhando preocupados e serenos seus companheiros... uma filha zeloza, chamando a atenção da mãe octagenária para ficar quieta, até a ordem do médico, que a dispensou, com a ordem de tentar diminuir pelo menos em um os dois maços de cigarro que ainda tragava.
Puxo assunto, parabenizando pela resistência e coragem da velhinha. Descubro que um velho colega seu, Paulo Autran, já havia morrido por conta do vício. E isso, parece-me, lhe dá uma certa esperança traduzida em resistência à ordem médica? Desde os 50 ela será advertida dos riscos do cigarro e mesmo assim não desistiu? Sera essa a essência de amores tóxicos a quais sempre estamos submetidos?
Olho para os lados, tentando fugir mesmo, mesmo, daquela situação. Mas uma hora acabei desistindo e me entregando à minha insignificância. Parecia, com aquele aparelho no meu nariz, dominado por um cateter qualquer, feito numa linha de produção imparcial - e que nunca seria pra mim - que iria morrer.
Quanto mais oxigênio com rinossoro entrava nas minhas artérias, mais a minha lucidez me advertia: todos, todos nós, vamos morrer. Uma vida eterna nos espera, sejamos cristãos ou ateus. uns desejando a glória dos céus, outras trabalhando pela vida infernal e, os mais conformados, acreditando piamente no nada após a morte. Mas, o nada, o que haverá no pós-vida-nada?
Aquela poltrona de couro mas se assemelhava à uma cadeira elétrica. Mas era mais maldosa que uma: me matou em mais um pedaço. Mais um dia da minha vida, desperdiçado por uma doencinha qualquer, onde eu sucumbi. Eu sei, não sou Deus. Sou apenas um ser humano sujeito às interpéries de uma vida onde as tempestades e bonanças se revezam, para lhes conferir um sentido pela negação do signo oposto.
Porém, aquela poltrona, aquela poltrona queria me dizer mais. Eu só ouvia seus gemidos... inexprimíveis, inexplicáveis, incompreensíveis. ela vinha de um outro mundo, dentro de mim, que eu tentava negar, mas que existe, dói, cutuca, está lá, latente, esperando que eu baixe a guarda para invadir.
Caminhos insconscientes para que eu lembre, descubra, o que realmente aconteceu há meses atrás... quando fatos e eventos de que não quero lembrar ocorreram em mim, minha memória aparentemente apagou... tal qual uma marca de giz mais forte que uma lousa pudesse comportar. Por mais que o apagador tente, as marcas de uma vida estão lá. Algumas queremos que tivessem sido ilegíveis, por toda uma vida.
A poltrona de couro fez que algumas dessas marcas se tornassem visíveis. O que faço? perguntei eu, indefeso, sozinho, sem forças, para entender essa mensagem? O que ela significa? que eu preciso superar definitivamente o ocorrido e saltar de cabeça e sem temor para uma profunda piscina repleta da água respirável da felicidade desencanada? Ou essa voz quer me atemorizar ainda mais em relação à frágil linha que me divide entre a vida e a morte...
As vozes se confundem, se entreolham, crescem em espiral dentro do meu coração. Fecho os olhos... a sua luminosidade negra, interiorana, me segue. Não vejo corações, vermelhos dentro de mim. Tudo é um profundo torpor, uma negritude impalpável. Não sei o que há lá. não quero tocar lá. Tenho medo do choque. Quero voltar.
Não suporto isso, olho para o lado, volto ao mundo exterior. A velhinha já se foi com a devotada filha. Os namorados continuam lá. Um deles vai e volta à porta, olhando, preocupadamente, para o seu companheiro. Outros vizinhos apareceram, os antigos retornaram às suas casas, ou suas habitações.
Chamo o enfermeiro com o olhar, pergunto, sem palavras, se ainda faltava muito tempo para ter alta de minha breve, difícil e voluntária internacão. Mais dez minutos, me informa a a voz seca, porém carinhosa, repleta de um profissionalismo respeitoso, do guardião cujo tom de pele contrastava com a cor aparentemente pura do uniforme que usava. Ambos partilhavam do mesmo material, composto de cansaço e germes insistemente repelidos pelos procedimetnos profiláticos que constantemente adotava.
Finalmente, me livrei daquela morte instantânea e reversível. Livre do catéter e do aparelho inalador, meu corpo pôde, finalmente, se desvincilhar daquele energia potente, negativa e positiva ao mesmo tempo, que me prendeu por poucos minutos ao outro mundo que me trasportou aquela poltrona. Minutos que demoraram uma eternidade.
para o ar, para o etéreo, para a energia quimérica do nada que em tudo se transforma. porém, meu pobre corpo já não suportava aquele peso. compromissos profissionais me exigiam pelo menos 50% de minha saúde e forma física, e, naquela momento, sentia que estava contando apenas com o mínimo para sobreviver...
Me dirigi ao hospital. Enfrentei a descrença de uma jovem médica, que relutava em aplicar uma medicação de emergência. Malditos planos de saúde que implementaram a miséria humana onde nossas corpos mais precisam de carinho... em busca de economizar uns trocados.
Fui valente, enfrentei a terrível guardiã da burra economia e ela me indicou meia hora de inalação e um breve composto de drogas intravenária. Me indicaram uma sala, com poltronas de couro marrom, onde restaria meu pobre corpo cansado... e humano! por este período, pude observar o microcosmo de um universo à minha frente...vigiado por uma outra dimensão, intermediada pela tela da televisão, onde o Palmeiras levava uma surra de uma equipe argentina qualquer....
Namorados fiéis acompanhando preocupados e serenos seus companheiros... uma filha zeloza, chamando a atenção da mãe octagenária para ficar quieta, até a ordem do médico, que a dispensou, com a ordem de tentar diminuir pelo menos em um os dois maços de cigarro que ainda tragava.
Puxo assunto, parabenizando pela resistência e coragem da velhinha. Descubro que um velho colega seu, Paulo Autran, já havia morrido por conta do vício. E isso, parece-me, lhe dá uma certa esperança traduzida em resistência à ordem médica? Desde os 50 ela será advertida dos riscos do cigarro e mesmo assim não desistiu? Sera essa a essência de amores tóxicos a quais sempre estamos submetidos?
Olho para os lados, tentando fugir mesmo, mesmo, daquela situação. Mas uma hora acabei desistindo e me entregando à minha insignificância. Parecia, com aquele aparelho no meu nariz, dominado por um cateter qualquer, feito numa linha de produção imparcial - e que nunca seria pra mim - que iria morrer.
Quanto mais oxigênio com rinossoro entrava nas minhas artérias, mais a minha lucidez me advertia: todos, todos nós, vamos morrer. Uma vida eterna nos espera, sejamos cristãos ou ateus. uns desejando a glória dos céus, outras trabalhando pela vida infernal e, os mais conformados, acreditando piamente no nada após a morte. Mas, o nada, o que haverá no pós-vida-nada?
Aquela poltrona de couro mas se assemelhava à uma cadeira elétrica. Mas era mais maldosa que uma: me matou em mais um pedaço. Mais um dia da minha vida, desperdiçado por uma doencinha qualquer, onde eu sucumbi. Eu sei, não sou Deus. Sou apenas um ser humano sujeito às interpéries de uma vida onde as tempestades e bonanças se revezam, para lhes conferir um sentido pela negação do signo oposto.
Porém, aquela poltrona, aquela poltrona queria me dizer mais. Eu só ouvia seus gemidos... inexprimíveis, inexplicáveis, incompreensíveis. ela vinha de um outro mundo, dentro de mim, que eu tentava negar, mas que existe, dói, cutuca, está lá, latente, esperando que eu baixe a guarda para invadir.
Caminhos insconscientes para que eu lembre, descubra, o que realmente aconteceu há meses atrás... quando fatos e eventos de que não quero lembrar ocorreram em mim, minha memória aparentemente apagou... tal qual uma marca de giz mais forte que uma lousa pudesse comportar. Por mais que o apagador tente, as marcas de uma vida estão lá. Algumas queremos que tivessem sido ilegíveis, por toda uma vida.
A poltrona de couro fez que algumas dessas marcas se tornassem visíveis. O que faço? perguntei eu, indefeso, sozinho, sem forças, para entender essa mensagem? O que ela significa? que eu preciso superar definitivamente o ocorrido e saltar de cabeça e sem temor para uma profunda piscina repleta da água respirável da felicidade desencanada? Ou essa voz quer me atemorizar ainda mais em relação à frágil linha que me divide entre a vida e a morte...
As vozes se confundem, se entreolham, crescem em espiral dentro do meu coração. Fecho os olhos... a sua luminosidade negra, interiorana, me segue. Não vejo corações, vermelhos dentro de mim. Tudo é um profundo torpor, uma negritude impalpável. Não sei o que há lá. não quero tocar lá. Tenho medo do choque. Quero voltar.
Não suporto isso, olho para o lado, volto ao mundo exterior. A velhinha já se foi com a devotada filha. Os namorados continuam lá. Um deles vai e volta à porta, olhando, preocupadamente, para o seu companheiro. Outros vizinhos apareceram, os antigos retornaram às suas casas, ou suas habitações.
Chamo o enfermeiro com o olhar, pergunto, sem palavras, se ainda faltava muito tempo para ter alta de minha breve, difícil e voluntária internacão. Mais dez minutos, me informa a a voz seca, porém carinhosa, repleta de um profissionalismo respeitoso, do guardião cujo tom de pele contrastava com a cor aparentemente pura do uniforme que usava. Ambos partilhavam do mesmo material, composto de cansaço e germes insistemente repelidos pelos procedimetnos profiláticos que constantemente adotava.
Finalmente, me livrei daquela morte instantânea e reversível. Livre do catéter e do aparelho inalador, meu corpo pôde, finalmente, se desvincilhar daquele energia potente, negativa e positiva ao mesmo tempo, que me prendeu por poucos minutos ao outro mundo que me trasportou aquela poltrona. Minutos que demoraram uma eternidade.
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crônicas de viver
terça-feira, 21 de outubro de 2008
Quem sabe eu escreva algo agora...
Esse título parece introdução à poesia de Bilac. "Ouvi estrelas, ora direis...", quem neste mundo concreto, frio e poluído, olha para os astros...
No máximo, no máximo... prestamos atenção nas estrelas confinadas no youtube, na TV, e muitas vezes não prestamos atenção às suas vozes, às suas mensagens, ao timbre afinado e desconcertante que quer nos transmitir, subliminarmente, uma emoção que a razão teima em escamotear.
Elas se contorcem, buscam compensar a baixa estatura com uma grandeza humana intangível, inalcancável. Saltam para perigosos penhascos, mergulhando na lava incadescente das paixões e voltam, majestosas, com o rosto reluzente à vida. Emergem dos palcos, olham, ressabiadas, como sempre, ao acompanhamento que lhes cercam. Buscam apoio em algo. Mas, sentem que estão sós. E neste momento fecham os olhos e, tais como as ísis do Egito, movimentam as suas bocas em busca de um vento incessante que, ao lado de beija-flores e libélulas, liberam a essência da vida para frutificar em outros corações por toda a eternidade.
Elis, não é por alguma data comemorativa de seu nascimento ou morte, mas este post é em tua homenagem. E por tudo que as suas canções me fizeram descobrir
No máximo, no máximo... prestamos atenção nas estrelas confinadas no youtube, na TV, e muitas vezes não prestamos atenção às suas vozes, às suas mensagens, ao timbre afinado e desconcertante que quer nos transmitir, subliminarmente, uma emoção que a razão teima em escamotear.
Elas se contorcem, buscam compensar a baixa estatura com uma grandeza humana intangível, inalcancável. Saltam para perigosos penhascos, mergulhando na lava incadescente das paixões e voltam, majestosas, com o rosto reluzente à vida. Emergem dos palcos, olham, ressabiadas, como sempre, ao acompanhamento que lhes cercam. Buscam apoio em algo. Mas, sentem que estão sós. E neste momento fecham os olhos e, tais como as ísis do Egito, movimentam as suas bocas em busca de um vento incessante que, ao lado de beija-flores e libélulas, liberam a essência da vida para frutificar em outros corações por toda a eternidade.
Elis, não é por alguma data comemorativa de seu nascimento ou morte, mas este post é em tua homenagem. E por tudo que as suas canções me fizeram descobrir
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